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Cachaça

Anísio Santiago e Havana — A Lenda Líquida de Salinas

Dr. Caspar Wenzel · · Atualizado em · 5 min de leitura

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Anísio Santiago e Havana — A Lenda Líquida de Salinas

Salinas, no norte de Minas Gerais, é a única região do Brasil com Indicação Geográfica de Produção de Cachaça reconhecida pelo INPI. E dentro de Salinas — a “capital mundial da cachaça” — a Fazenda Havana, do lendário Anísio Santiago, ocupa um lugar singular: produção minúscula, distribuição limitada, peregrinação obrigatória.


Por que este rótulo importa

Anísio Santiago (1912-2002) começou a produzir cachaça em 1943 num pequeno alambique já existente na Fazenda Havana, no sopé da Serra dos Bois, em Salinas. Em 1946 registrou a marca Havana — homenagem à fazenda. Décadas depois, o produto ficou conhecido como o Pappy Van Winkle brasileiro: muito falado, pouco encontrado, comparado com os melhores destilados envelhecidos do mundo. Em 2007, a marca Havana recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial de Salinas.


✍ Dr. Caspar escreve

Fui até Salinas pra entender por que pessoas que entendem de destilado falam de Havana com a reverência que reservam para Pappy Van Winkle ou Yamazaki 18. A explicação está em três fatores combinados que pouca cachaça tem juntos: produção artesanal verdadeiramente pequena (cerca de 12 mil litros/ano, contra dezenas de milhões de marcas industriais), envelhecimento longo em bálsamo (12 anos para a Havana, 10 anos para a irmã Anísio Santiago), e a herança técnica direta do Anísio. Quando Roberto Carlos Morais Santiago — neto e atual cuidador — me explicou que o envelhecimento prolongado em barris exauridos de bálsamo é o que dá a complexidade sem agressividade, entendi. Bálsamo “novo” arranca taninos demais; bálsamo já cansado libera apenas as nuances aromáticas remanescentes — fenóis suaves, especiarias, notas balsâmicas que dão nome à madeira.


A história

A produção formal começou em 1943, quando Anísio se estabeleceu definitivamente na Fazenda Havana. O alambique já existia na propriedade, herança dos antigos donos. Em 1946, registrou a marca Havana e começou a vender comercialmente.

A operação manteve a escala artesanal por décadas. Anísio faleceu em 2002, e a família continuou. Hoje a marca é conduzida pela próxima geração da família Santiago, com a mesma escala (cerca de 10-12 mil litros anuais).

A região de Salinas tem reconhecimento de Indicação Geográfica de Produção de Cachaça — denominação oficial que reconhece o microclima, a tradição e o método produtivo da região como peculiares. A Havana é uma das marcas que sustentam essa designação.


🔬 A ciência por trás — bálsamo exaurido

A escolha do bálsamo (nomes científicos variam: Myroxylon peruiferum, entre outros) como madeira principal não é tradicional na cachaça mineira (mais comum: carvalho, amburana, jequitibá). É marca registrada da casa Anísio.

O segredo está em usar barris de bálsamo exauridos — barris que já passaram por várias safras de cachaça anteriores, perdendo a maior parte dos taninos agressivos. O que fica é apenas a contribuição residual de:

  • Compostos fenólicos suaves (vanilina, siringaldeído, eugenol)
  • Lactonas amadeiradas (notas de coco e baunilha em concentração baixa)
  • Resinas naturais do bálsamo (notas balsâmicas-medicinais sutis que dão complexidade)

Os 12 anos de envelhecimento em barril exausto é o que diferencia a Havana. É lentidão calculada — a cachaça extrai pouco a cada ano, em vez de ser saturada rapidamente.


A linha

A casa produz duas marcas com o mesmo método mas tempo de envelhecimento diferente:

RótuloVolumeEnvelhecimentoCaracterística
Anísio Santiago600ml10 anos em bálsamo”Irmã mais nova” da Havana
Havana600ml12 anos em bálsamoA original; mais complexa, finalização mais longa

Notas de degustação (Anísio Santiago 10 anos)

Cor âmbar escura. No nariz, canela, baunilha, mel selvagem, fundo balsâmico-medicinal. No paladar, entrada suave que evolui pra especiarias quentes. Retrogosto longo com notas de madeira nobre. 40% ABV.

A Havana segue o mesmo perfil mas com 2 anos a mais — finalização ainda mais longa, complexidade aromática maior.


Onde comprar

Atenção: a produção é limitada, então estoques esgotam rápido. Os preços observados em maio de 2026 refletem o caráter premium do produto — esta é cachaça de colecionador, não de consumo casual.

Dicas de compra

  • Para começar: Anísio Santiago (10 anos) — acesso ao perfil da casa por preço mais baixo
  • Para colecionador: Havana 12 anos — a versão de referência, busque em lojas especializadas de Salinas
  • Para entender: Kit comparativo com as duas — degustação lado a lado mostra o que 2 anos a mais de bálsamo faz
  • Cuidado com falsificações: produto de produção pequena e marca cobiçada atrai contrafação. Prefira lojas especializadas (Cachaças de Salinas, Cachaçaria Nacional, Ateliê da Cachaça) ou diretamente do produtor

Visitação

A Fazenda Havana fica em Salinas, norte de Minas Gerais, ao pé da Serra dos Bois. Salinas inteira merece uma visita — é a única região com IG de cachaça reconhecida no Brasil, e cidade pequena com várias casas históricas.

  • Cidade: Salinas, MG
  • Site oficial: cachacahavanaoficial.com.br
  • Visitação à fazenda: sob agendamento; produção pequena, nem sempre há estoque para venda direta
  • Festival da Cachaça de Salinas: acontece anualmente (julho/agosto) — momento ideal para conhecer Salinas e várias casas de uma vez

Como chegar a Salinas

Salinas fica a 610 km de Belo Horizonte e 1.600 km de São Paulo — viagem de carro de no mínimo 8h de BH. Tem aeroporto regional próximo (Montes Claros, ~150 km). Não é destino de fim de semana; planeje pelo menos 3 dias para fazer a viagem valer a pena.


Veredito do Dr. Caspar

⭐⭐⭐⭐⭐ 5/5

Patrimônio líquido. A Havana e a Anísio Santiago são exemplos do que cachaça artesanal de altíssimo padrão pode ser — escala pequena, técnica refinada, envelhecimento longo, paciência. Comparar com Pappy Van Winkle não é hipérbole gratuita: é o equivalente brasileiro em escala de produção, escassez e prestígio. Para quem ama destilados envelhecidos, Salinas é peregrinação obrigatória, e essa casa é a primeira parada.


Resenha por Dr. Caspar Wenzel para A Levedura. Atualizado em 02/05/2026 com dados verificados (site oficial, Mapa da Cachaça, Cachaças de Salinas, Blog Cachaças de Salinas).